quarta-feira, 12 de abril de 2023

5. Abuso sexual de menores na Igreja: a produção mediática da Igreja como «singularidade malevolente»

Por décadas a fio, as investigações sobre a prevalência de abusos sexuais de menores concentraram-se, quase exclusivamente, na Igreja Católica [1]. Consequentemente, durante décadas, a Igreja Católica foi representada em tais estudos e na imprensa como a protagonista, quase exclusiva, do escândalo dos abusos sexuais de menores. A concentração de atenção na Igreja Católica a propósito deste tema acabou por produzir a percepção pública de que a Igreja constituía uma 'singularidade malevolente' no que toca ao fenómeno de abuso sexual de menores: algo havia de especial e próprio a esta organização que incentivava estes crimes. Desta representação mediática quase exclusiva e da consequente percepção de 'singularidade' produzida, decorriam as teorias vulgares sobre o assunto, que, naturalmente, procuravam nas características diferenciadoras da instituição as causas: era o celibato, era a doutrina, etc., etc.


Deveria ser evidente que, para avaliar se a Igreja Católica detinha, verdadeiramente, uma prevalência superior destes crimes, era necessário estudar a prevalência de abusos sexuais na sociedade como um todo e em instituições de outras denominações e seculares. Esses estudos, porém, tardaram décadas a aparecer.

Entretanto, a produção mediática da Igreja como instituição particularmente prevaricadora e do estereótipo do padre católico como pedófilo e abusador sexual já tinha sido realizada com sucesso e impressa de forma indelével no imaginário público.

Quando, finalmente, os estudos alargaram o escopo, e fizeram as comparações com outras instituições, acabaram a concluir que a prevalência de abusos sexuais em instituições de outras denominações e em instituições seculares era semelhante à prevalência registada na Igreja Católica. Este alargamento do escopo só se deu muito recentemente: por exemplo, em 2014, um estudo sobre a realidade alemã que concluía que na Igreja Católica não existia uma prevalência especial ou superior de abuso sexual de menores comparativamente a outros contextos, identificava-se como o primeiro que estendia a investigação a instituições de outra natureza, porque todos os estudos anteriores se haviam concentrado na realidade católica [2]. Atente-se: só em 2014, quando já o tema fazia manchetes de jornais há 30 anos. Não se prestou suficientemente atenção à larga prevalência de abusos em outras instituições porque a narrativa da 'singularidade malevolente' da Igreja era confortável, enformando desde o início o escopo dos estudos e servindo de motivo recorrente na produção informativa.

É certo que, mesmo os estudos realizados recentemente por comissões independentes em vários países, facultam informações que desmentiriam a generalização e estereótipo que recaem sobre o 'padre católico'. Por exemplo, o relatório da comissão independente estabelecida para estudar a realidade francesa concluiu - e anota esta conclusão não sem que se lhe detecte um tom de certa surpresa - que entre todos os clérigos e religiosos católicos que estiveram em algum momento activos entre 1950 e 2020 em França, a percentagem de envolvidos em abusos sexuais se situava entre 2,5% e 2,8% [3]. Esta estimativa destoa por completo da ideia com que se ficaria depois de décadas de representação mediática: afinal, a esmagadora maioria dos 'padres católicos' nunca tivera nada a ver com abusos sexuais. A própria comissão teve de reconhecer que, provavelmente, está em causa uma situação em que um número relativamente pequeno de 'predadores' é responsável por uma grande porção dos casos detectados [4].

Os estudos dos anos recentes têm trazido à luz um fenómeno muito generalizado e entranhado socialmente, que de modo nenhum parece exclusivo da Igreja Católica. Revelam, afinal, que a prevalência de abusos sexuais nas escalas nacionais é surpreendentemente alta. Começa a perceber-se lentamente, para já só no âmbito académico, que o foco quase exclusivo na Igreja Católica restringiu a atenção pública para a prevalência muito difundida de abusos sexuais no todo social, através de todas as camadas sócioeconómicas e da diversidade das instituições. Começa a perceber-se que, esta colocação extremamente estreita do problema, obscureceu o nosso entendimento das causas do fenómeno: andamos a teorizar sobre o celibato, o arcaísmo da doutrina católica, a especial perversidade dos clérigos quando, afinal, em contextos em que não há celibato, em que há doutrinas desempoeiradas e em que se movem pessoas seculares e aparentemente progressivas, a prevalência dos crimes é similar. Começa a perceber-se que, também em outras instituições, a reacção das hierarquias tem sido igualmente nefasta: desvalorizar as denúncias, reagir obtusamente, encobrir.

Continuamos, no entanto, a reproduzir a percepção da 'singularidade malevolente' da Igreja Católica neste capítulo, inculcada por décadas de uma representação exclusiva, estreita, excessiva da Igreja como protagonista: com todas as consequências intelectuais e práticas, prejudiciais para uma visão compreensiva, clara do escândalo e de uma actividade eficaz. Com todas as consequências, é evidente, para todas as vítimas. Com todas as consequências, inevitavelmente, para a Igreja Católica - consequências estas que, estou certo, serão alegremente recebidas por muitos, independentemente da sua desproporção e, logo, injustiça.

Se há coisa que se pode dizer é isto: embora inserida no meio deste processo representativo desproporcional, como consequência desta visão estreita, deste monopólio das culpas, inteiramente fabricado, a Igreja Católica é, entre todas as organizações sociais, a que está a fazer o seu escrutínio e o seu exame de consciência. 

Esperemos, mas com paciência, que todas as outras comecem os seus.

[1] Jenkins, P. (1996). Pedophiles and priests : anatomy of a contemporary crisis. Oxford: Oxford University Press; p. 9.
[2] Spröber, N., Schneider, T., Rassenhofer, M. et al. Child sexual abuse in religiously affiliated and secular institutions: a retrospective descriptive analysis of data provided by victims in a government-sponsored reappraisal program in Germany. BMC Public Health 14, 282 (2014). https://doi.org/10.1186/1471-2458-14-282
[3] Commission indépendante sur les abus sexuels dans l'Église (2021). Les violences sexuelles dans l'Église catholique, France 1950-2020; p. 40.
[4] Idem, ibidem.

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