quarta-feira, 12 de outubro de 2022

3. Ocupação nazi da Dinamarca; Cristiano X; 'Crise do Telegrama'

O reino da Dinamarca foi ocupado pela 'Heer' em 1940; porém, nos termos do armistício firmado com a Alemanha, a Dinamarca reteve apreciável autonomia na gestão dos seus assuntos domésticos. O rei Cristiano X permaneceu no país, diferentemente de outras cabeças coroadas de territórios sob ocupação alemã, que se exilaram, mormente em Inglaterra. Aquando do 72.º aniversário do rei, em 1942, Hitler ter-lhe-á enviado um prolixo telegrama congratulatório. Em resposta, seguiu um telegrama do rei dinamarquês que dizia somente:

'Spreche Meinen besten Dank aus. Chr. Rex'


ou seja,


'Com os meus melhores agradecimentos, Rei Cristiano'

Esta manifestação de desprezo aristocrático pelo antigo cabo-de-guerra e então ditador demagogo da potência ocupante terá enfurecido Hitler, que envidou irritadas providências diplomáticas, a ponto de o episódio ter ficado conhecido como 'Crise do Telegrama'.

domingo, 12 de dezembro de 2021

2. Abade Faria, magnetizador, e António Egas Moniz, o injustiçado

Teve a nossa História muitos abades que deixaram memória. Penso, desde logo, no Abade Correia da Serra, grande erudito, cuja amizade Thomas Jefferson muito estimava. Mas penso também no Abade Faria, seu contemporâneo, e que como ele, viveu no exílio e se dedicou às ciências. É neste abade que quero fixar a atenção.

José Custódio Faria, depois conhecido como Abade Faria (1746-1819) estudou Teologia em Roma, cidade em que foi também ordenado sacerdote. Contudo, não estava destinado a fazer a vida tranquila de pastor de almas. Mostrou-se um revolucionário. A primeira vista desta sua qualidade deu-a, quando, entrado na chamada Conspiração dos Pintos, em 1787, procurou derribar o poder português em Goa para o entregar aos nativos. Fracassada a conjura, exilou-se - por felicidade, em França, nas vésperas da Revolução. Nesta viria a ter papel muito activo. Adepto das ideias radicais, comandou celebremente uma investida contra a Convenção, em 1795.

Porém, não apenas, e nem principalmente como revolucionário relembra a História o Abade Faria. Na sua estada em Paris, Faria foi apresentado ao fenómeno do magnetismo e da hipnose pelo Marquês de Puységur. Prosseguiria, depois, as investigações por sua conta. Abriu um consultório de magnetizador na Rue de Clichy, em Paris, o que, se lhe valeu uma clientela numerosa, também lhe terá valido escárnio e suspeição de quem o tomava por vigarista, louco ou bruxo.

Quem muito se interessou por estas pesquisas do Abade Faria foi o médico e professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Dr. António Egas Moniz (1874-1955). Este interesse de Egas Moniz chegou mesmo à escrita de uma monografia sobre os trabalhos do Padre Faria, dada à estampa em 1925 com o título de O Padre Faria na História do Hipnotismo. Nesta sua dissertação, Moniz ressalta que, longe de pretender dizer-se feiticeiro ou de atribuir as causas e efeitos da hipnose a forças ocultas, o Abade Faria esteve entre os primeiros que associaram ao fenómeno da hipnose causas puramente naturais, avançando teorias em consonância com o saber da época e legando preciosas orientações aos futuros praticantes da hipnose (entre os quais, como se sabe, e com grandes consequências, Sigmund Freud).

Esta é, diga-se, somente uma das muitas e várias obras da autoria de Egas Moniz, que nesta particular encontrou no Abade Faria um percursor das ciências psíquicas, nas quais ele próprio se notabilizou.

António Egas Moniz era um homem de distinta inteligência. O extenso rol de textos que fez publicar, que compreendem temas em história, política, literatura, sexologia e, evidentemente, neurologia, dão testemunho da vivacidade da sua mente, do escopo largo da sua erudição e da integralidade da sua experiência. 

Fig. 1: "A vida sexual"

Ainda muito jovem, em 1901, levou à impressora o título A vida sexual (fisiologia e patologia), que, entrando no gosto do público, pouco costumado a ouvir falar tão desassombradamente de tais assuntos, conheceu, pelo menos, dezanove edições. 

Porém, só depois dos cinquenta anos de idade é que Moniz se empenhou em exclusivo nas investigações médicas. Antes, havia sido deputado no Parlamento; diplomata; Ministro da República, com a pasta dos Negócios Estrangeiros, embora por breve tempo; chefe da delegação portuguesa que se apresentou em Paris, na Conferência de Paz, 1919. 

As realizações com que Egas Moniz inscreveu o seu nome na história da Medicina são duas: a angiografia cerebral e a leucotomia pré-frontal (também conhecida, posteriormente, como lobotomia).

Não me demorarei em considerações sobre a leucotomia pré-frontal: é, desde há anos, um dos mais controversos procedimentos clínicos da história da Medicina; controvérsia que, naturalmente, se estende ao Prémio Nobel que, em 1949, foi atribuído a António Egas Moniz, especificamente pela invenção daquela psicocirurgia.

Aqui, quero realçar que a contribuição de Egas Moniz para as ciências neurológicas não se restringe á invenção da leucotomia. A sua outra magna realização, o desenvolvimento da angiografia cerebral constitui, na minha opinião, e na opinião avalizada de tantos outros, um contributo inestimável para o progresso da Neurologia.

A angiografia cerebral criou a possibilidade de diagnosticar alterações no cérebro que antes, simplesmente, não existia, continuando hoje a ser empregada para o diagnóstico preciso de enfermidades cerebrais. Por esta invenção inestimável, é que o Dr. Bengt Jansson, autor do artigo sobre Egas Moniz que consta do sítio da Fundação Nobel, afirma que o médico português continuaria a merecer o Nobel da Medicina, independentemente do desenvolvimento da leucotomia pré-frontal.

Acrescento que Egas Moniz contribuiu para estender a aplicação do método da angiografia cerebral ao diagnóstico em outras especialidades: à pneumologia, com o desenvolvimento da angiopneumografia, em colaboração com Fausto Lopo de Carvalho e Almeida Lima; e à cardiologia, com a concepção da aortografia, em colaboração com Reynaldo dos Santos.

Assim, só podemos deplorar que Moniz haja recebido o Nobel, especificamente, pela contenciosa prática da leucotomia, e não pela introdução da angiografia cerebral nas lides da Neurologia, que já lhe dera renome nos meios médicos internacionais nos anos '20, bem como pela sua colaboração na extensão do seu método a outros domínios médicos.

sábado, 5 de setembro de 2020

1. Nesturkh, Maklai, Chernishevsky

Tudo começou com a minha leitura de um estudo de M. Nesturkh versando sobre as raças da humanidade, na tradução inglesa do original russo: «The Races of Mankind». É uma edição soviética, localizada em Moscovo. Tentando determinar a data de publicação do livro, que não aparece expressa em parte alguma, verifiquei que o ano mais tardio mencionado na bibliografia é 1963. Este facto, conjugado com a alusão, na última página de exposição de Nesturkh, ao ano de 1980 como momento futuro, no parágrafo «Por 1980, as bases técnicas e materiais do comunismo terão sido construídas na U.R.S.S...», conduz à conclusão, evidente, de que o livro se escreveu e publicou entre 1963 e 1980; provavelmente, ainda nos anos '60.

O autor dedica o último capítulo da obra ao racismo. Naquele tempo, este nome ainda não se havia imbricado na confusão hoje lhe é característica. Para Nesturkh, o racismo é uma ideia: a ideia de que existem distintas raças na humanidade; de que as diferenças entre estas raças são muito profundas; e de que as mesmas se ordenam numa hierarquia, ou seja, segundo relações de superioridade e inferioridade. O racista é qualquer indivíduo que aceita esta ideia. 

Nem todos os racistas aceitam a origem comum das raças humanas - é o racismo poligénico. A recusa da origem comum implica que diferenciem entre raças como entre espécies: umas melhores, superiores, outras piores, inferiores. Porém, é possível aceitar a origem comum do homem - o racismo monogénico - e permanecer racista. Nestes casos, o racismo é introduzido na hipótese monogénica distinguindo entre raças em estágio avançado de evolução e raças em estágio atrasado de evolução; umas percorreram mais caminho, outras ficaram para trás.

Nesturkh rejeita toda a tese racista, em qualquer uma das suas formulações particulares, assim como as suas sinistras implicações. No curso do capítulo, Nesturkh faz alusões de grande interesse à carreira e obras de alguns literatos russos nos estudos antropológicos.

A primeira referência de interesse é ao etnógrafo e antropologista russo Nikolai Mikhluko-Maklai (1846-1888), do qual reproduzo o retrato dado na página 103 do livro. Este eminente erudito é conhecido por ter vivido muitos anos entre os Papuanos da Nova Guiné, estudando o seu modo de vida e a sua constituição psíquica. Desta convivência, tirou Maklai, segundo Nesturkh, numerosos elementos comprovativos de que os Papuanos, não obstante o seu estágio civilizacional, são dotados de capacidades mentais semelhantes às dos europeus, sendo, como tal, capazes das mesmas realizações do homem branco.

Outra alusão relevante é a feita a Nikolai Chernyshevsky (1828-1889), que Nesturkh apoda de «um dos maiores intelectuais russos». Também este cientista, em muitas das suas obras, contribuiu para a refutação dos fundamentos pseudocientíficos que se procurava outorgar ao racismo no seu tempo, a acreditar no que lhe credita Nesturkh.

Incidentalmente, descobri que este Chernyshevsky redigiu algumas das páginas que mais influência exerceram sobre o movimento revolucionário russo, na sua novela cujo título, traduzido para língua portuguesa, pergunta: «Que Fazer?».