Teve a nossa História muitos abades que deixaram memória. Penso, desde logo, no Abade Correia da Serra, grande erudito, cuja amizade Thomas Jefferson muito estimava. Mas penso também no Abade Faria, seu contemporâneo, e que como ele, viveu no exílio e se dedicou às ciências. É neste abade que quero fixar a atenção.
José Custódio Faria, depois conhecido como Abade Faria (1746-1819) estudou Teologia em Roma, cidade em que foi também ordenado sacerdote. Contudo, não estava destinado a fazer a vida tranquila de pastor de almas. Mostrou-se um revolucionário. A primeira vista desta sua qualidade deu-a, quando, entrado na chamada Conspiração dos Pintos, em 1787, procurou derribar o poder português em Goa para o entregar aos nativos. Fracassada a conjura, exilou-se - por felicidade, em França, nas vésperas da Revolução. Nesta viria a ter papel muito activo. Adepto das ideias radicais, comandou celebremente uma investida contra a Convenção, em 1795.
Porém, não apenas, e nem principalmente como revolucionário relembra a História o Abade Faria. Na sua estada em Paris, Faria foi apresentado ao fenómeno do magnetismo e da hipnose pelo Marquês de Puységur. Prosseguiria, depois, as investigações por sua conta. Abriu um consultório de magnetizador na Rue de Clichy, em Paris, o que, se lhe valeu uma clientela numerosa, também lhe terá valido escárnio e suspeição de quem o tomava por vigarista, louco ou bruxo.
Quem muito se interessou por estas pesquisas do Abade Faria foi o médico e professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Dr. António Egas Moniz (1874-1955). Este interesse de Egas Moniz chegou mesmo à escrita de uma monografia sobre os trabalhos do Padre Faria, dada à estampa em 1925 com o título de O Padre Faria na História do Hipnotismo. Nesta sua dissertação, Moniz ressalta que, longe de pretender dizer-se feiticeiro ou de atribuir as causas e efeitos da hipnose a forças ocultas, o Abade Faria esteve entre os primeiros que associaram ao fenómeno da hipnose causas puramente naturais, avançando teorias em consonância com o saber da época e legando preciosas orientações aos futuros praticantes da hipnose (entre os quais, como se sabe, e com grandes consequências, Sigmund Freud).
Esta é, diga-se, somente uma das muitas e várias obras da autoria de Egas Moniz, que nesta particular encontrou no Abade Faria um percursor das ciências psíquicas, nas quais ele próprio se notabilizou.
António Egas Moniz era um homem de distinta inteligência. O extenso rol de textos que fez publicar, que compreendem temas em história, política, literatura, sexologia e, evidentemente, neurologia, dão testemunho da vivacidade da sua mente, do escopo largo da sua erudição e da integralidade da sua experiência.
| Fig. 1: "A vida sexual" |
Ainda muito jovem, em 1901, levou à impressora o título A vida sexual (fisiologia e patologia), que, entrando no gosto do público, pouco costumado a ouvir falar tão desassombradamente de tais assuntos, conheceu, pelo menos, dezanove edições.
Porém, só depois dos cinquenta anos de idade é que Moniz se empenhou em exclusivo nas investigações médicas. Antes, havia sido deputado no Parlamento; diplomata; Ministro da República, com a pasta dos Negócios Estrangeiros, embora por breve tempo; chefe da delegação portuguesa que se apresentou em Paris, na Conferência de Paz, 1919.
As realizações com que Egas Moniz inscreveu o seu nome na história da Medicina são duas: a angiografia cerebral e a leucotomia pré-frontal (também conhecida, posteriormente, como lobotomia).
Não me demorarei em considerações sobre a leucotomia pré-frontal: é, desde há anos, um dos mais controversos procedimentos clínicos da história da Medicina; controvérsia que, naturalmente, se estende ao Prémio Nobel que, em 1949, foi atribuído a António Egas Moniz, especificamente pela invenção daquela psicocirurgia.
Aqui, quero realçar que a contribuição de Egas Moniz para as ciências neurológicas não se restringe á invenção da leucotomia. A sua outra magna realização, o desenvolvimento da angiografia cerebral constitui, na minha opinião, e na opinião avalizada de tantos outros, um contributo inestimável para o progresso da Neurologia.
A angiografia cerebral criou a possibilidade de diagnosticar alterações no cérebro que antes, simplesmente, não existia, continuando hoje a ser empregada para o diagnóstico preciso de enfermidades cerebrais. Por esta invenção inestimável, é que o Dr. Bengt Jansson, autor do artigo sobre Egas Moniz que consta do sítio da Fundação Nobel, afirma que o médico português continuaria a merecer o Nobel da Medicina, independentemente do desenvolvimento da leucotomia pré-frontal.
Assim, só podemos deplorar que Moniz haja recebido o Nobel, especificamente, pela contenciosa prática da leucotomia, e não pela introdução da angiografia cerebral nas lides da Neurologia, que já lhe dera renome nos meios médicos internacionais nos anos '20, bem como pela sua colaboração na extensão do seu método a outros domínios médicos.