sábado, 5 de setembro de 2020

1. Nesturkh, Maklai, Chernishevsky

Tudo começou com a minha leitura de um estudo de M. Nesturkh versando sobre as raças da humanidade, na tradução inglesa do original russo: «The Races of Mankind». É uma edição soviética, localizada em Moscovo. Tentando determinar a data de publicação do livro, que não aparece expressa em parte alguma, verifiquei que o ano mais tardio mencionado na bibliografia é 1963. Este facto, conjugado com a alusão, na última página de exposição de Nesturkh, ao ano de 1980 como momento futuro, no parágrafo «Por 1980, as bases técnicas e materiais do comunismo terão sido construídas na U.R.S.S...», conduz à conclusão, evidente, de que o livro se escreveu e publicou entre 1963 e 1980; provavelmente, ainda nos anos '60.

O autor dedica o último capítulo da obra ao racismo. Naquele tempo, este nome ainda não se havia imbricado na confusão hoje lhe é característica. Para Nesturkh, o racismo é uma ideia: a ideia de que existem distintas raças na humanidade; de que as diferenças entre estas raças são muito profundas; e de que as mesmas se ordenam numa hierarquia, ou seja, segundo relações de superioridade e inferioridade. O racista é qualquer indivíduo que aceita esta ideia. 

Nem todos os racistas aceitam a origem comum das raças humanas - é o racismo poligénico. A recusa da origem comum implica que diferenciem entre raças como entre espécies: umas melhores, superiores, outras piores, inferiores. Porém, é possível aceitar a origem comum do homem - o racismo monogénico - e permanecer racista. Nestes casos, o racismo é introduzido na hipótese monogénica distinguindo entre raças em estágio avançado de evolução e raças em estágio atrasado de evolução; umas percorreram mais caminho, outras ficaram para trás.

Nesturkh rejeita toda a tese racista, em qualquer uma das suas formulações particulares, assim como as suas sinistras implicações. No curso do capítulo, Nesturkh faz alusões de grande interesse à carreira e obras de alguns literatos russos nos estudos antropológicos.

A primeira referência de interesse é ao etnógrafo e antropologista russo Nikolai Mikhluko-Maklai (1846-1888), do qual reproduzo o retrato dado na página 103 do livro. Este eminente erudito é conhecido por ter vivido muitos anos entre os Papuanos da Nova Guiné, estudando o seu modo de vida e a sua constituição psíquica. Desta convivência, tirou Maklai, segundo Nesturkh, numerosos elementos comprovativos de que os Papuanos, não obstante o seu estágio civilizacional, são dotados de capacidades mentais semelhantes às dos europeus, sendo, como tal, capazes das mesmas realizações do homem branco.

Outra alusão relevante é a feita a Nikolai Chernyshevsky (1828-1889), que Nesturkh apoda de «um dos maiores intelectuais russos». Também este cientista, em muitas das suas obras, contribuiu para a refutação dos fundamentos pseudocientíficos que se procurava outorgar ao racismo no seu tempo, a acreditar no que lhe credita Nesturkh.

Incidentalmente, descobri que este Chernyshevsky redigiu algumas das páginas que mais influência exerceram sobre o movimento revolucionário russo, na sua novela cujo título, traduzido para língua portuguesa, pergunta: «Que Fazer?».